Fim de ano: momento para reflexões!

Fonte: http://www.stockvault.net

Antes de começar a trabalhar nos plantões, pensava que seria um tanto chato. Perder finais de semanas, noites sem dormir, atender crianças com os mesmos problemas: febre, tosse, diarréia e vômitos. A vida inteira a mesma coisa!? Que engano!

Cada plantão tem uma história, é um aprendizado. Crianças são sinceras e inteligentes. Impossível não aprender com elas. Seus pais e avós trazem a experiência de vários anos, e claro, histórias imperdíveis.
Um dia desses, atendi a uma criança acompanhada de sua avó. Uma jovem senhora, com um sorriso encantador. Parecia ser sua mãe, de tão nova que era. O pequeno tinha seis anos, e também trazia a alegria em sua expressão. Não tinha nada grave, mas os poucos sintomas que apresentava, eram suficientes para preocupar a avó.
Conversávamos sobre as infecções de garganta de repetição, motivo pelo qual deixava a criança com febre várias vezes ao ano. Um otorrinolaringologista já havia indicado amigdalectomia (cirurgia para retirada das amigdalas), mas a avó, preocupada com o procedimento, não tinha o agendado.
– O senhor não imagina o quanto eu gosto desse anjo! – Justificava ela.
Geralmente, nesses casos, a retirada das amigdalas reduz drasticamente as infecções de garganta. Apesar dos riscos cirúrgicos, é considerado um procedimento simples.
Orientei a avó sobre a necessidade de fazer a tal cirurgia, já que as amigdalas do menino eram muito grandes e estavam ocasionando alterações da respiração e fala:
– Imagino o quanto a senhora goste de seu neto, e exatamente por este motivo, sugiro que retorne ao otorrino. – Enquanto isso escrevia a receita com as medicações.
Ao perceber que havia preenchido errado o sobrenome da criança, amassei o papel e o joguei na lixeira. Imediatamente a jovem senhora comenta, suspirando:
– Ai… Uma árvore a menos no Planeta!
Aquela frase me soou como uma facada no peito. Muito constrangido tentei justificar o erro, aceitando o puxão de orelha. Quantas árvores que eu já havia derrubado até então!
– Doutor, o senhor me desculpe. Sou professora de educação infantil e sempre que vejo alguém jogando um papel fora, sou obrigada a falar. Faço minha parte.
Outra facada! Eu não estava fazendo a minha!
Ao me despedir da criança e de sua acompanhante, comentei:
– Depois dessa consulta, serei obrigado a plantar uma árvore.
A avó logo emendou:
– E eu, com certeza, procurarei o especialista para operar o meu neto! Muito obrigada doutor!
Mais uma consulta, mais uma lição. Perceber o quanto eu posso aprender com as pessoas que cruzam meu caminho foi fundamental para que minhas noites de plantão se tornassem mais agradáveis.

3 comentários sobre “Fim de ano: momento para reflexões!

  1. Nossa Thiago… como fico contente em saber que ainda existem pessoas que exercem sua profissão com o coração!!!Apesar de já ser mãe de “2” e ainda levar um sustinho de vez enquando, vou ficar atenta no seu blog, vai ser uma mão na roda…Parabéns pela iniciativa.Bjos

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