Culpa. De onde vem isso?

Falar sobre culpa é algo tão complexo que eu nem deveria me arriscar. Mas vamos lá. Já está na hora, depois de tantas e tantas leituras, tantas observações de consultório. Se Freud não se revirar no caixão, tá valendo!

Este tema permeia grande parte da rotina do pediatra. Tenho uma colega, também pediatra, que, após o nascimento do seu filho, falou claramente: “Ser mãe é estar sempre sentido culpa”. Aquilo me pareceu estranho num primeiro momento, mas só então comecei a perceber que este sentimento é tão presente nas mães e ao mesmo tempo tão escondido, que só pode terminar em conflito! Qual é a mãe que se sente a vontade em dizer que está cansada, que está querendo ficar sozinha, depois de ter esperado 9 meses para o nascimento do bebê?
Esta ambiguidade entre amor e ódio, entre querer e não querer, entre amar e não querer estar junto (mesmo querendo… complexo!!) dá origem a um sentimento que é difícil de explicar e muito mais difícil de lidar: a culpa. Sentimo-nos culpados simplesmente por pensar em algo que poderia ser censurado por alguém. Nossa cabeça é rápida demais! Pensa, analisa o que pensamos e ainda nos dá a devolutiva, tudo isso antes de realmente termos consciência do pensamento! Compliquei… deixa eu voltar a fita: imagina uma mãe com um lindo bebê no colo. Ela está cansada. Adora seu bebê, mas ele está chorando muito. Chora muito mesmo. Está alimentado, não tem coco nem xixi, está aquecido, ou seja, não precisa de mais nada. Mas chora, chora, chora. Chora simplesmente como forma de se comunicar. Quer contato com a mãe. A mãe sente uma certa raiva daquele bebê chorando, pois ela já fez tudo o que deveria, e ele parece não retribuir com carinho. Esse pensamento, acontece em nível inconsciente. Sem a mãe ter clareza do que está pensando. Consegue apenas ter contato com um sentimento desconfortante, algo que a incomoda. Aos poucos, vai sentindo uma culpa imensa. E às vezes não se dá conta do real motivo dessa culpa. Quem disse que é fácil ser mãe?! 
Agora, vou para o outro lado da história. Vamos ver a ótica do bebê chorão: ele mamou todo o leite que havia no seio. Considerava o seio bom, algo prazeroso. Mas acabou. Quando o bebê percebe que é ele mesmo que esvazia o seio bom, que faz com que o leite acabe, ele se sente culpado. Esta pode ser uma das origens do sentimento de culpa. Como ele não tem uma noção muita boa das coisas, imagina que o leite acabou para sempre! (Coitadinho!!) Se a mãe estiver muito ansiosa, e também se sentindo culpada, o bebê não consegue o apoio necessário que precisa para aliviar sua própria angústia, pois, olha para o lado e o que vê: uma mãe também angustiada. Trocando por miúdos… ele pensa: “putz! Ferrou!”. Aí, não há pai que de conta de segurar tamanha ansiedade!!

Então, para termos bebês tranquilos, precisamos de mamães tranquilas. Pensem nisso!



8 comentários sobre “Culpa. De onde vem isso?

  1. Minha mãe deveria ter lido isso há 24 anos! Quem sabe ficaria menos ansiosa e se cobraria bem menos! hehehe
    Interessante pensar sobre isso, normalmente, tendemos a pensar que a criança ou bebê não possui certo sentimentos, ou então, que não “entende” o que muitas vezes se passa em casa ou com pessoas ao seu redor.
    Curti

  2. Dr. Considerando que o bb reflete a alma da mãe (sugiro fortemente que o Dr. leia Laura Gutman, se ainda não conhece!) pode ser que ele esteja mesmo chorando o desespero e o desamparo dessa mãe! Precisamos de mães que entendam que o puerpério é um momento de entrega total aos instintos, precisamos de uma sociedade/família que apoie essa entrega e que não cobre nenhum outro comportamento socialmente aceito como bonitinho dessa nova mãe. Precisamos de pessoas que expliquem para essa mãe que sim, a vida mudou, a filha que ela era não pode mais prevalecer, que agora ela é mãe e precisa assumir as rédeas da sua vida, sem se importar tanto com o que o marido, os pais, os vizinhos e o pediatra pensam sobre as formas dela cuidar desse bb. A sociedade condena a livre demanda, a cama compartilhada, a extero-gestação. E a mãe não tem como cuidar de um bb sendo forte, linda, esposa, profissional, dona de casa e desempenhando todo as demais funções que lhe competiam antes e que são tão mais valorizadas pelo resto da galera. Bebês não encontram no peito só o leite que lhes alimenta, mas também o conforto e proteção, mas ainda assim as mães resistem a oferecer o peito porque o bb “está alimentado”. A maternidade, especialmente esses primeiros anos, são tão intensos e oportunos para o desenvolvimento da mãe, para encarar seus medos, suas raivas, sua sombra e para desenvolver suas potencialidades, para curar sua infância, para libertar sua alma e pouco se houve isso de médicos (eu nunca ouvi!). A culpa que acompanha a maternidade é decorrente de toda essa cobrança, falta de empatia, materialismo da sociedade com a dupla mãe-bb e da ausência de consciência dessa mãe que se deixa levar pelas cobranças e não se entrega ao processo. Deixar o papel de “menas mãe” ou livrar-se da culpa não é simplesmente “lavar as mãos”, mas sim assumir a responsabilidade de fazer diferente, de seguir o coração, de amar incondicionalmente e libertar-se dos tabus que até então pareciam verdades absolutas, mas que agora, com o bb no colo, não fazem o menos sentido!
    Abraço

  3. Ótimo texto, super didático e até cinematográfico! Você sempre chega no ponto certo com muita suavidade e comicidade! Parabéns, pena meu bebê não ser seu paciente! Já aceita Geap????? kkkkkk…abraços!

  4. Tô amando as postagens! Ontem mesmo foi o dia da “louculpa”! Descabelada e culpada andando pela casa sem entender porque, pois o pequeno estava um brinco. Mamava e fungava. Nessas horas, senta lá no divã que Freud explica!

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