Exame pra quê?

Muitos pais reclamam que foram em um plantão, e o médico não fez nenhum exame e já foi dando medicamento. Bem, em primeiro lugar, temos que entender que a consulta médica tem uma estruturabásica que nós médicos seguimos. Recebemos o paciente em nosso consultório, conversamos com a família (alguns médicos conversam pouco, outros muito… eu muito mais ainda! hehehe) e tentamos identificar quais os problemas que merecem uma maior atenção. Muitas vezes, o que a família traz nem é problema, é algo normal que acontece com a criança naquela idade. Então esclarecemos. Mas se há suspeita de problemas, seguimos para o exame físico. Este primeiro momento, chamamos de anamnese.
No exame físico, procuramos pistas que possam trazer dados sobre o problema que a criança apresenta. Por exemplo, se a criança está com dor de barriga e vômitos, examinamos o corpo inteiro, mas focamos na região abdominal para tentarmos encontrar alguma coisa (alteração no intestino, no estômago, gases, dor, fezes endurecidas, aumento no tamanho do fígado ou baço, etc). É importantíssimo que o médico conduza o exame físico, o que não é fácil com a criança. Não é legal quando os pais interrompem o médico durante o exame, pedindo para que a criança faça uma ou outra coisa. Deixe o médico se comunicar com a criança. Você não faz isso? Será?  Veja algumas situações em que o silêncio ajuda bastante:

  • Ausculta cardíaca: o médico precisa se concentrar para ouvir os batimentos do coração. Ao examinar a criança, dá de ouvir o que os pais falam, mas a atenção acaba se desviando e o médico passa mais trabalho para dar conta de tudo. Tem que rolar uma “leitura labial” para entender. Deixe o pediatra ouvir o coração e o pulmão tranquilamente, e, após ele retirar o estetoscópio do ouvido, faça as perguntas necessárias ou converse com a criança.
  • Ausculta pulmonar: Quando o médico está ouvindo o pulmão, ele pede para a criança respirar. Alguns pais falam o seguinte: “Respira assim filho, ó!! Puxa pelo nariz e solta pela boca!”. Gente! Na boa… se for para dar esta instrução, o próprio médico dá. Vocês não acham estranho orientar a criança para algo que o médico está habituado a fazer. Se for melhor respirar pelo nariz, deixe com ele a orientação. Na verdade, é melhor ouvir a respiração quando a criança puxa o ar pela boca.
  • Palpação do abdome: Criança é um serzinho difícil de examinar, todos sabemos disso. Às vezes, perguntamos se dói aqui, dói ali… ela fala sim para tudo! Durante a palpação da barriguinha da criança, o médico o faz olhando para a face da criança. Se tem dor, a criança prontamente demonstra sinais de dor. Ela não precisa dizer que estar sentindo dor. É muito comum o exame estar indo muito bem, até o pai interromper: “Filho dói aí aonde o médico apertou?”. Dá vontade de dizer… agora que o seu filho disse que dói, pai, o que eu faço?!  Hehehehe… Gente! Criança sabe se comunicar, às vezes não do mesmo jeito que adulto. Mas o pediatra sabe entender estes sinais de comunicação.
  • Inspeção da boca: Ao ver a boca, não peça para a criança colocar a língua para fora. Deixe que o pediatra oriente. Muitas vezes, estamos vendo dentes,  ou a própria garganta… tudo indo muito bem… até que a mãe fala: “Filho, mostra a língua para o tio”. Mamãe do meu coração! Eu também tenho língua e sei falar. Se precisar, deixe que eu peço para seu filho mostrar a língua!

Bem, depois de termos examinado a criança, fazemos uma avaliação para saber se há ou não necessidade deexames de imagem ou laboratório. Se houver, vamos pedir, se não… não! “Ah doutor, mas não tem nenhum exame pra fazer?” Não. Imagine um animalzinho de pelo curto, fofinho, branquinho, macio, com rabinho curto, orelhas grandes, olhos grandes e vermelhos, dentes grandes e que está comendo cenoura. Imaginou? Então… eu preciso de um exame para saber que estou falando de um coelho?! Não né! Tem situações na medicina que são assim. As coisas estão tão claras que não há necessidade de fazer exame para se saber o que é. Agora, se você confia mais no exame do que no seu pediatra… meu amigo… tenho que lhe dizer: esse mesmo pediatra que você não confia é que fará a leitura do exame. 
Há uma infinidade de exames, dependendo de nossa suspeita. Se eu penso em um problema intestinal, tenho que selecionar alguns exames. Agora se o problema é no fígado, os exames são outros. Muitos pais chegam no plantão dizendo:

– Mãe:  Eu quero um raio X para o meu filho.
– Thiago: Ah é!? Raio X de que a senhora quer?
– Mãe: O senhor é que tem que saber, o senhor é o médico!
– Thiago: Mas é a senhora que quer o Raio X, e não eu! Justamente por eu ser o médico, eu não vou expor o seu filho à radiação neste momento, sem necessidade. Agora… se a senhora ainda quiser mesmo assim, eu posso fazer. Qual raio X a senhora quer?!
Acho que o recado está dado. O médico estuda para pedir o exame certo, que seja menos agressivo para a criança e mais esclarecedor para a resolução do problema. Durante o exame físico, fique em silêncio e deixe com que o médico se comunique com o seu filho. Se precisar de ajuda, ele o solicitará. Desse jeito a consulta será muito mais produtiva para todos e você se surpreenderá com a capacidade de comunicação e relacionamento de seu filho! 

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