Reflexões sobre uma cesárea

“Foi-se o tempo em que a cesárea era um recurso para os partos que não evoluíam naturalmente. Hoje ela é feita para impedir o início do parto. Triste por estar ajudando a nascer um bebê de cesárea, sendo que a mãe acabou de entrar em trabalho de parto.”

Sem nenhuma pretensão de “causar”, foi isto que escrevi em uma madrugada, quando aguardava para auxiliar no parto de um bebê. Em poucos instantes, uma enxurrada de comentários começou a surgir e a compor uma complexa discussão que parecia não ter fim. E com certeza não teria, pois o foco estava em saber o que é o melhor, qual é o certo: parto natural ou cesárea? Equivoquei-me por alguns instantes, em pensar que estava triste naquele momento com a cesariana em si. Na verdade, muitos sentimentos escondidos no meu inconsciente fizeram com que eu projetasse um pouco da minha angústia naquela situação para a cesárea. Felizmente, com a ajuda da discussão, percebi que tinha muito mais coisa envolvida neste sentimento do que eu imaginava.

Por que eu ficaria triste por ajudar um bebê vir à vida, simplesmente porque seria por cesárea? Antes mesmo que eu pudesse fazer este processamento e ter consciência real daquilo que eu estava sentindo, veio um comentário: “Parto normal é para as fortes”. Será mesmo isso? Será que quem faz cesárea não é forte? Temos como generalizar? Fiquei bastante incomodado com esta afirmativa e logo concluí: definitivamente não. Mulheres fortes também fazem cesárea. A banalização geral que me entristece. O caminho é esse: minha tristeza vem da banalização. Não só do parto, mas de tudo: do comportamento, das relações, da vida!

Novos comentários foram surgindo e um verdadeiro “ranking de horas de parto” começou a aparecer: “Eu fiquei 14 horas em trabalho de parto do primeiro filho e só rezava para não ter que fazer cesárea.” “Também fiquei 13 horas e não queria cesárea.” O que será que tem por trás destas falas? Desejo de ser reconhecida pelo esforço? Ou uma verdadeira forma de incentivar, mostrando que, mesmo em trabalho de parto por tanto tempo, tudo deu certo no final? Eu acredito na segunda hipótese! A compreensão foi se tornando realmente difícil, pois aquilo que seria um troféu para algumas mulheres, para outras era algo ofensivo, a ponto de alterar os ânimos: “Acho um saco essas mães falarem que é ótimo ficar 30 horas em trabalho de parto. Ah! Vão se catar! Uma dor horrível, muitas vezes desnecessária. Faria 10 cesáreas se fosse preciso e nenhum parto normal.”“Acima de tudo, deve haver respeito por quem escolhe fazer a cesárea. Essa coisa de bater no peito e dizer que ficou trocentas horas em trabalho de parto, como se isso, por si só, a tornasse a melhor mãe do mundo, é o fim! Na verdade, vejo muitas das defensoras do parto natural como verdadeiras talifãs!”.Claro que fiquei curioso para saber o que é talifã! Risos. Segundo o Dr.Google, “talifã” é uma mistura de talibã com fã, dando a ideia de uma pessoa que faz qualquer coisa para defender sua opinião, seu ídolo, de forma extremista. Bem, não chamaria de talifã, mas acredito que alguns comentários podem sim chatear mães que tiveram seus bebês por cesárea e afastá-las ainda mais desta escolha: “Acho tão simples. Vamos lembrar que o parto é normal. Não entendo porque tanto medo dele. E tem vários benefícios.”. Penso que não seja tão simples assim. Como falamos, a escolha pelo parto natural é algo complexo e depende da experiência de vida de cada mãe.

Há realmente algo maior, algo cultural que está dividindo as mães de crianças que tiveram seus filhos de parto normal e as mães de cesárea. Percebo que, na tentativa de tentar mudar a realidade, de tentar resgatar a naturalidade da vida pelo parto, há um grupo bem definido de pessoas muito bem intencionadas, que realizam um ótimo trabalho, mas que poderiam, penso eu, acolher melhor as mulheres que fazem uma decisão contrária: “Não somos contra a cesárea, como estão achando. Só lamentamos quando um bebê prestes a nascer de parto normal, nasce por um cirurgia de grande porte e desnecessária, em muitos casos. As pessoas certamente não fazem ideia do que estão tirando dos filhos.”Talvez até façam, mas algo implícito, escondido no meio de tantos pensamentos e sentimentos podem apontar para uma escolha diferente.Temos que respeitar. 

A falta de informação das mães foi questionada: “Muitas vezes as mulheres tem medo da violência e não do parto natural (tão desconhecido atualmente)…” Pode ser que realmente elas tenham medo de sofrer, de serem deixadas de lado, mas será que, em um hospital privado, aonde as mulheres provavelmente tem acesso à informação e maior possibilidade de escolha, o problema está no desconhecimento do parto natural? É só entrar no Facebook para ver dezenas de fotos, vídeos e comentários sobre o parto natural e humanizado. Algo ainda não está fechando pra mim. “As mulheres são educadas para crer que não tem força, poder, capacidade para parir, que precisam das intervenções, cortes, cirurgias”. Como assim? As mulheres nunca foram tão ativas nas suas decisões como hoje! Por que elas estariam mais inseguras? Por que seriam “educadas” para crer que não tem força, poder e capacidade para parir, quando estão assumindo postos e cargos cada vez mais altos na sociedade? Acredito que reconhecem estas qualidades, mas decidem, assim mesmo, que não querem parto normal por outro motivo. “Acho que a mulher conquistou o direito de escolher qual tipo de parto quer ter. E nem por isso será menos mãe por escolher fazer uma cesárea!”. Será que, inconscientemente, o aumento de cesáreas esteja acontecendo simplesmente por uma necessidade de “mostrar quem manda”, um exercício de direito e poder? Não sei. 

Acho importante valorizarmos a experiência de cada um. Nenhuma decisão é tomada em vão. Sempre há uma história de vida antes de um desejo, de uma escolha. E aí os comentários vieram como presentes! Que maravilha!

Algumas mães relataram que tiveram seus bebês de parto normal, e fariam novamente deste jeito, o que me parece desmistificar um pouco essa história de dor horrível. Será que se fosse tão ruim assim, teriam mães que passariam por tudo de novo, mesmo podendo escolher? “Meus dois filhos, tive de parto normal, a bolsa estourou e o parto evoluiu normalmente. Foi muito tranqüilo. E se engravidar novamente, com certeza farei parto normal.” “Tive minha filha de parto natural há 13 anos, e se hoje engravidasse, novamente gostaria que fosse natural ou normal.”“Desde que fiquei grávida, sempre quis parto normal. Acredito que é a forma mais saudável. Consegui e não sofri muito. Valeu muito à pena. Se ficar grávida novamente, faria tudo de novo.” “Eu sou mãe e tive meu bebê de parto normal. Sei bem como curti, por mais que sofrendo a felicidade de esperar o tempo do meu filho. Foi a melhor experiência da minha vida!”  Talvez você esteja pensando: elas tiveram sorte! Não é sempre assim! Pode ser. Mas por que esta sorte não estaria também com você?

Algumas mães reconhecem que não foi tão fácil o parto normal, mas mesmo assim dizem ter valido à pena ter seus filhos desta forma: “Tive a minha filha de parto normal. Sofri durante 12 horas e faria tudo de novo!” O importante é reconhecer que cada mulher tem uma experiência diferente relacionada à dor, e reage de forma diferente a ela: “Como doula, já acompanhei parto onde a parturiente só se deu conta da dor no expulsivo, e outro que acabou em cesárea porque o sofrimento não permitiu que o trabalho de parto evoluísse. Mas este sofrimento é pessoal e está associado a diversos fatores; e os [fatores] físicos, eu acredito, são os de menor importância.” “(…)meu maior desejo ao ser mãe era justamente passar por todas as etapas naturais do processo. Sei lá! É como andar de montanha russa sem sentir o frio na barriga, o medo, a euforia. E olha que eu até teria motivos pra querer uma cesárea, pois tive minha filha aos 39 anos. Mas não. Foi parto natural, com todas as dores que tinha direito, sem analgesia e de cócoras! E passaria por tudo novamente. Bom demais!”

Sabemos que, quando há uma forte emoção envolvida, os registros cerebrais também são mais fortes. Um momento aonde há um desejo de que tudo dê certo, um esforço real, compensado pelo choro do bebê, talvez faça com que “algo diferente” aconteça na relação entre mãe e bebê. Ouvir o bebê chorando durante os primeiros meses de vida pode soar como uma ótima música, pois ficou registrado como um momento de prazer muito grande. Por outro lado, acredito que este “algo diferente” pode muito bem ser conquistado na relação de qualquer dupla mãe-bebê, desde que outras formas de doação e esforço sejam evidenciadas. Sim! A maternidade é uma doação constante! “O desejo da mãe em ter um filho independente de como nasça, acredito ser mais importante. Também não vale ter ficado horas e horas em trabalho de parto e depois não incorporar toda a responsabilidade de ter um filho.”
Uma mãe que começa dizendo que teve quatro filhos, já aumenta nossa curiosidade sobre o que vai falar. Ela relata que os dois primeiros nasceram de parto normal, e os dois últimos de cesárea: “Tive quatro filhos. O primeiro foi parto normal, mas prematuro. O segundo normal induzido. O terceiro estava muito grande e o obstetra aconselhou-me a cesárea para evitar risco para mim e para o bebê. E a minha princesinha nasceu de cesárea porque a obstetra disse que seria mais seguro por ter tido uma cesárea há quatro anos.”Na fala, ela relata com bastante consciência e propriedade o motivo pelo qual foi escolhida cada via de nascimento, e conclui, reconhecendo que o parto pode sim ser doloroso, mas a recompensa vale à pena: “Bom, com minhas experiências digo que o parto normal é o melhor. A dor que se sente no trabalho de parto é recompensada. Acabou o parto é só alegria: curtir o bebê e voltar ao peso normal bem mais cedo. Já na cesárea, você não sente nada na hora, mas a recuperação é mais lenta e você vai precisar de ajuda de alguém pra tudo nos primeiros dias, ao contrário do parto normal, onde você já consegue cuidar do bebê assim que ele nasce.” Em outro relato, uma mãe descreve sua experiência positiva em ter tido um filho de parto normal, após uma cesárea: “Sou mãe de dois filhos. A primeira nasceu de cesariana, pois estava pélvica, sentada. O segundo nasceu de parto normal. A recuperação do parto normal é infinitamente melhor e mais rápida. O bebê nasce mais esperto, sem efeito da anestesia. No parto normal não há preocupações maiores como na cesariana, onde você tem que cuidar de cicatrizes; sua mobilidade fica prejudicada, pois há corte de músculo e você não consegue levantar e sentar bem, pegar seu bebê com toda a sua vontade. Depende muito mais de outras pessoas.”

As transformações no corpo da mulher durante a gestação são inúmeras, tornando-se imprescindível a preparação para o parto: “Ganhei meu filho de parto normal e estou muito feliz pela decisão que tomei. Me preparei muito para tê-lo de forma natural e essa preparação foi psicológica (através de conversas com quem já passou pelos dois tipos de parto – minha mãe) e física (fiz yoga para gestante durante os 9 meses, para auxiliar o meu corpo a se preparar para o tão esperado momento). E o mais importante: tive muito apoio do meu esposo, que desde o princípio se mostrou a favor da minha decisão. Estou muito feliz, tenho 35 anos e meu parto foi um sucesso. Após 10 horas de trabalho de parto, sendo 7 delas em casa!” Esta fala me demonstra segurança e preparo. Além disso, pela primeira vez vi a figura do esposo! Perceberam isso? Ela relata que teve o apoio do esposo o qual foi favorável à decisão. Pensando nisso veio outra dúvida: Esta decisão deve ser dos dois ou só da mãe? Fiquei intrigado! Vou divagar: Se o filho é do casal, e a forma com que ele nasce interfere diretamente em algumas questões importantes…Vixi! Difícil! Imagino a conversa do casal, antes da concepção do bebê (para descontrair!):

Mãe: Amor, vamos ter um filho?
Pai: Claro! Mas só se ele nascer de parto normal.
Mãe: Então é você quem vai engravidar!
Cheguei um pouco mais perto da minha angústia ao ler o relato de uma mãe que defende o parto normal, e completa, dando a ideia de que quem nasce de cesárea recebe fórmula: “Outra que tenho certeza que irá concordar, a criança que é amamentada é muito mais saudável que outra que tomou leite em pó. Isto é comprovado.” É comprovado sim! Mas não significa que, por nascer de cesárea, a criança não irá ser amamentada. Sabemos que as chances de abandono do aleitamento materno exclusivo é maior com a cesárea, mas o uso de fórmula não é algo que necessariamente aconteça. Por outro lado, o simples fato de o leite demorar para descer no primeiro dia, faz com que mais de 50% das mães que são internadas no hospital que eu faço meus plantões, ofereçam fórmula para seus bebês! Tenho a impressão que a “tendência para o fácil” acaba se extrapolando: “Por que não dar um complemento? Ele não precisa ficar sofrendo, sugando toda hora!” Esta foi uma das falas que ouvi nas visitas médicas o que me entristece bastante. Associado a isso, a falta de funcionário disponível para a tarefa de ensinar a mãe a amamentar, aumenta este índice. Doulas?! Por que não auxiliar as mães que tem seus filhos de cesárea também?! Como ampliar esta aproximação? Pediatras! Estamos fazendo nosso trabalho adequadamente? Estamos disponibilizando tempo para “peitar” o não uso de fórmula desnecessária? Pois é. Minha consciência pesou um pouco. No hospital, em meio à correria do plantão, eu estava disponibilizando menos tempo do que elas realmente precisavam. E quando me liguei disso, a funcionária estranha: “O senhor demorou tanto naquele quarto! Aquela família suga a gente, né?!” Todos estávamos contaminados, de uma forma ou de outra, com o “fast-food” da internação! 

Seguindo minha reflexão, deparei-me com depoimentos de mães que não tiveram boas experiências com o parto normal, reforçando a individualidade em cada experiência: “Hoje eu posso falar porque tive minha filha de parto normal. Não quero ter outro parto normal de jeito nenhum. Passei horas sofrendo; eu e minha filha, porque eles sofrem também. Se a mulher pode ter um parto sem dor, a medicina está aqui pra isso. Por que então sentir dor? Não digo apenas pela cesárea, mas pelo menos a anestesia peridural que pode aliviar a dor da mãe!” Outra mãe, sem descrever como foi a sua experiência, relata: “Tive três filhos de parto natural. Não me arrependo. Mas, como mãe, não sei se incentivaria minhas duas meninas a fazerem o mesmo.” 

Também surgiram relatos de mulheres que optaram por cesárea eletiva e que tiveram boas experiências: “Tive duas cesáreas, recuperação ótima, dor zero! Continuo preferindo.” 

Fiquei muito surpreso ao ver que colegas médicos também colaboraram com esta discussão, trazendo um olhar esclarecedor, apesar de eu, não concordar com tudo (né?! Risos): “A cesariana é um ótimo procedimento cirúrgico. Envolve seres humanos que devem ser ouvidos em suas crenças, mitos, medos, mas que, em última análise, cabe ao profissional responsável decidir. Não é melhor nem pior.” Neste momento, também bateu mais uma sensação de dúvida: Quem está preparado para decidir o melhor jeito de o bebê nascer? E por que as mães não estão mais confiando e seguindo as orientações médicas como há alguns anos? Decisão compartilhada, incluindo médico, mãe e pai não seria o melhor? Seria (penso eu)! Mas esbarro no depoimento da mãe/doula: “Não dá para falar em consenso quando não se tem informação. As falsas indicações de cesárea, os mitos sobre o parto, reforçados pelo sistema de saúde e a falta de serviços humanizados viciam a escolha. Eu não fui amarrada para a cirurgia eletiva, mas o meu médico disse que eu mataria o meu filho se esperasse mais (40 semanas e 5 dias). Dá para falar em consentimento? Meu filho nasceu super bem e o obstetra falou: ‘Nossa! Poderia ficar mais uma semana com essa placenta e esse líquido!’” Continua o colega: “Esta discussão, apesar de envolver todos os sentimentos do ser humano, não é possível.Estatisticamente, em estudos sérios, o índice de cesárea fica em torno de 12% do total de partos.” Rapidamente me deu um estalo! Aonde que o índice é de 12%? Apenas nos estudos e na Holanda (10%)! Na vida real, aqui mesmo, no Brasil, quase 40% dos partos feitos pelo SUS já são cesarianas. É mais do que o dobro indicado pela Organização Mundial de Saúde (15%). Nas clínicas privadas, aonde a gestante tem mais autonomia para decidir, este índice é muito maior: chega a 84% dos partos, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar! Meu sentimento foi ficando muito mais claro quando tomei consciência de que, no hospital aonde faço plantão, 100% dos partos são cesáreas. O serviço, apesar de ser uma maternidade, não faz partos por via natural! Como eu poderia não estar chateado em estar colaborando com esta estatística?! Não estava chateado por auxiliar naquele parto em si, mas por fazer parte de algo que eu não concordo! Atender uma mulher em trabalho de parto com boa evolução, mas que, de uma hora para outra, passou a ser tratada como um caso de emergência!? Emergência sim, pois, se a cesárea não fosse realizada, algo ruim teria acontecido: um parto normal! Estranho!! Muito estranho! Bem… O colega termina com algo que assino embaixo: “A experiência do parto é individual e única, envolve cultura, expectativas,valores, apoio. A vivência deste fenômeno espetacular pode ser repartida como histórias de vida, alegria, dor sofrimento, prazer, superação e isto cada um passa do seu jeito. Não confundir o mau serviço, o desinteresse, as más condições, os fatores humanos presentes, os riscos inerentes e muitos inevitáveis a um resultado melhor. Aí é outro assunto.” Será então, que as pessoas envolvidas no processo do parto normal seriam diferentes? Mais humanas? Mais presentes? Mas… Se o índice de parto normal está reduzindo, estas pessoas estão desaparecendo do Planeta?! Help me!

Outra colega relata: “Essa discussão vai longe. Já tive várias dessas e depois de horas nunca chegamos a um consenso. O que me chateava às vezes, eram as pessoas dizendo que não se faziam parto normal porque os médicos não queriam. Eu acho que muitas vezes a mulher tem medo da dor, do desconforto, da possível perineoplastia (cirurgia para correção plástica do períneo) depois.” Bem, eu penso que há as duas coisas, mas há muitos fatores implícitos levando tanto as mães como os médicos a tomarem a decisão. Ela segue: “No fim, a conclusão que cheguei é que cada mulher tem que decidir como quer dar a luz e assumir os riscos e conseqüências inerentes a cada procedimento. Nenhuma escolha pode ser julgada, pois crianças são saudáveis tanto se nascerem por parto normal como cesárea. Assim como nenhum dos dois procedimentos deve ser ‘demonizado’. Agora, talvez a experiência de se ter um parto normal seja realmente mais marcante, emocionante. Não sei, pois não sou mãe ainda.  Mas nem todo mundo precisa disso pra ser feliz.” Ótimo se todos respeitassem as decisões de cada um, em todos os momentos da vida! Mas acredito que a função dos médicos, nesta situação, seria tentar criar o ambiente mais favorável possível para que as mães pudessem estar encorajadas a escolher o parto natural sim, já que este está associado a menor possibilidade de complicação e melhor recuperação. Logo recebo um amparo a esta ideia, de outra colega: “O Brasil em geral passa por momentos de crise de identidade. Respeitemos, mas continuemos fazendo o que é certo. Seus pacientes e sua consciência agradecem! O bebê apenas precisa de você!” Bem, se minha profissão é guiada pela ciência e amor, e estas me mostram melhores caminhos com o parto natural, tenho que tentar, sempre que possível, seguir este percurso. Por outro lado, sou humano, e respeito a decisão dos meus semelhantes, restando-me ajudar como eu puder, com a mesma vontade.

Acredito que temos que ouvir estas falas e criar formas de acolher a todos, com o mesmo respeito e dedicação merecidos. Por que não humanizar a cesárea? Pode ser um caminho do meio. Por que as mães que fazem cesárea não podem se preparar da mesma forma, não podem curtir a barriga crescendo do mesmo jeito, fazer atividade física, preparar o seu corpo desde o início, pensando no seu bem e no bem do seu filho que está em formação? Será que elas já não fazem isso? Por que as mães que optam por cesárea não podem buscar auxílio de uma doula, acolhedora, que, antes de tentar convencê-la a mudar de ideia, pode cuidar, ajudar a seguir um caminho gostoso, tranqüilo e quem sabe, até mudá-lo por um desejo verdadeiro? E por que será que eu fui atender à cesárea com uma cara de pastel, se na verdade, eu participaria de um dos momentos mais lindos da vida!? Penso que a minha cara representava toda a minha sensação de impotência (e “preguiça”) de mudar a realidade em que eu vivencio. “Assim está funcionando…”. Não é fácil, mas já comecei a pensar e agir diferente! Que venham crianças saudáveis, por caminhos diferentes, mas igualmente lindos e amáveis! O convite está feito!   

6 comentários sobre “Reflexões sobre uma cesárea

  1. Eu tenho 4 partos naturais no currículo. Todos foram rápidos, mas não tem como dizer que não suportei dores fortes. Nunca precisei fazer cesárea, se houvesse necessidade teria feito tranquilamente. Não dá para ser radical, contra ou a favor. Devemos ter bom senso e menos preconceito. Realmente, fazer um parto natural bem sucedido depende muito das circunstâncias e das pessoas envolvidas.

  2. Acredito que a decisão por qual tipo de parto ter , nos dias de hoje, vem da experiência dos partos que nossas mães tiveram e tb do profissional que nos acompanha durante a gestação. Eu nasci de parto normal, rápido (menos de seis horas) e minha mãe sempre me incentivou a ter parto normal, nunca me assustou. Já várias amigas minhas foram desencorajadas por suas mães dizendo que sofreram horas e que se pudessem escolher teriam feito cesarea. Ao engravidar já sabia que queria parto normal e ao perceber que minha antiga gineco não era muito favorável ao parto busquei outro médico. Pois ela de cara disse para eu não ir me empolgando com o parto normal pq a maioria das pacientes dela chegavam na hora e não conseguiam ter de parto normal. Para mim ficou claro que ela não fazia parto normal pq este necessita de um acompanhamento que leva horas e pra isso ela teria que abrir mão de sua agenda de consulta, horas de lazer, etc, pois é muito prático escolher um dia, uma hora e dali 30 minutos estar pronta pro próximo. Busquei outro médico (pai e filho), estes sim, anjos, nunca vi tanto amor, dedicação e carinho pela profissão. Enfim, minha filha nasceu de parto normal em apenas 2 hs de trabalho de parto, sem analgesia, de cocoras e sem banheira quentinha pq não deu tempo. A recuperação foi ótima. Minha filha nasceu no dia e hora que quis e participou do parto (dava pra ver ela empurrando com os pezinhos a minha barriga).

    1. Legal Cláudia! A escolha do profissional é essencial nesta hora. Sem dúvida, escolher um obstetra que deixa claro estar motivado para o parto normal, aumenta a possibilidade desse tipo de nascimento. Parabéns!

  3. Se eu falar que chorei, e chorei mais e ainda mais com seu relato, ok?
    Achei de extrema sensibilidade o que li, Você é homem, ok, mas o texto que li pareceu vindo de uma mãe, ou melhor, de duas mães, uma cuja o parto fora natural e outra de cesárea. Participo de inúmeros grupos de mães, lê-se de tudo um pouco, pode-se encontrar de extremistas a pessoas completamente perdidas apenas buscando uma luz, e que acabam perdendo-se mais e mais na opinião alheia.
    Meu parto foi natural, incrível e pelo SUS, nem por isso eu saio jogando pedra na janela de quem optou por cesárea. Grandes amigas tiveram uma, duas cesáreas, são ainda sim, mães maravilhosas, se prepararam como na sua “dica final”. Claro que quando escuto alguém falar o bordão “Não dói, é rápido” dá uma certa raiva, mas existem os dois lados da moeda. Fala-se hoje na preguiça dos médicos gananciosos, não sou eu falando e sim milhares de mulheres, abra seu facebook, tchanam! Dizem que estão empurrando a cesárea por levar apenas 40 minuto e CATCHIN, 8 mil reais na conta do hospital. O que mais renderia, 6 partos normais de 12 horas, ou 6 cesáreas? Acho que o direito de escolha deve ser respeitado, portanto que a escolha venha da mãe ou do bebê, não do médico. Logo menos os médicos cirurgiões “cesaristas” serão vistos como maquininhas de dinheiro por todos, isso não é lá muito legal. Alô médicos, tô falando com vocês!
    Outro ponto que você tocou e achei interessante, a figura do pai. A brincadeira feita ali no texto, aconteceu de certa forma lá em casa. Estou grávida / Que lindo! Tem que ser parto normal! / Oi? / Parto normal! Sou contra cesárea. Minha cara foi de bolacha, e eu nao sabia nada a respeito de nada. Não estava nos grupos modernosos do facebook ou de onde fosse. Poxa, se eu posso escolher, não quero dor. Veio ele me falar: Vai pesquisar, depois me responde, ou melhor, nem responde, você é esperta, vai querer normal. Em 2 dias eu quis normal. Mas o papel dele não para por aí. Eu fiquei sim 12 horas lá sofrendo (2 meses depois eu não lembro de nada, só sei de relatos e flashes) mas eu lembro sempre pra mim mesma que se nao fosse ele do meu lado, sendo tratado como cachorro, chingado e mordido, eu não aguentaria. Eu recomendo o parto normal, faria outras vezes, mas sempre digo tenha alguem que te de forças ao seu lado, se seu marido é fraco, chame sua mãe! Pois sozinha o tempo não passa, fiquei 3 horas sem ele sentindo dor, fazendo exames e comecei a gritar que queria cesárea. Hoje ele me conta o quanto foi forte, diz que eu arregalei os olhos e disse “Vai lá, fala que eu quero uma cesárea e que eu to indo embora, e ME LEVA EMBORA DAQUI AGORA” Ele foi… Mas já sabendo o que fazer, trouxe uma enfermeira pulo firme que me olhou nos olhos e falou – Você é uma mulher incrêvel por estar aqui até agora, está evoluindo bem e sua filha vai nascer aqui, de parto normal e será lindo, mas agora aguenta firme, seu marido vai te fazer massagem e você vai relaxar, quando eu voltar não quero mais ouvir isso, ok? Eu engoli seco, repensei e comecei do zero (ok, entra na parte que eu perdi a memória) mas ocorreu tudo bem, minha recuperação foi incrivelmente rápida e logo eu estava passeando com minha baby no hospital. PS: A recuperação dele não foi tão rápida, a mordida ficou, os palavrões ecoaram na cabeça dele por um tempo e o stress foi grande, mas o que vale é ter hoje uma história divertida pra contar, um parto 10, uma filha linda e saber que ele fez a coisa certa e foi forte o bastante! Entao mulheres, tenham uma, duas, tres pessoas na sua lista de candidatos, um pai, sua mae, uma doula, alguém para te dar forças, essa pessoa na hora H podem fazer toda a diferença.

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