Eu que sou careta!

Tô vendo que vou ser um daqueles velhinhos chatos, cri cri. Já estou me sentindo assim aos 30! Algumas pessoas falam pra eu pegar mais leve nas postagens, pra eu ver o lado bom das coisas que acontecem. Eu tento! Juro que tento! Quem me conhece pessoalmente sabe que eu sou uma pessoa otimista, de bem com a vida, feliz! Mas quando me deparo com algumas histórias que me tiram do sério, a adrenalina vai a mil! Me controlo para continuar simpático e tento orientar da melhor forma possível, mostrando o que penso, instruindo e não criticando… Mas depois… Tenho que desabafar. Não tem jeito! Sangue italiano é assim. Espero que esses desabafos sirvam para alguma coisa, sirvam para exemplos, para aprendizado, para o bem. Nem que sejam só para abrir uma discussão, pois já servirão para alguma coisa. Não apenas para alimentar uma úlcera. Juro que tento, mas não consigo admitir alguns comportamentos de pais irresponsáveis. Não me esforçarei em poupar palavras neste sentido. São irresponsáveis sim! Explico.
Estou cansando de fazer cara de paisagem para pais que falam: “Eu disse pra ele fazer tal coisa, mas não fez”. “Eu falei pra ele tomar cuidado, mas ele não tomou”. “Viu doutor, fala pra ele, porque eu já não consigo mais”. O problema não é que você não consegue mais. O problema é que você nunca conseguiu. Talvez nunca tenha feito questão de tentar! Mas como sua mente funciona em curto prazo, você não consegue pensar no dia de amanhã. Você deixou de corrigir alguns comportamentos inadequados de seu filho aos 2 ou 3 anos de idade, pois pareciam bonitinhos e você queria “aproveitar o momento”. Sabe aquele “não” que não funciona, aquele “um, dois, três” em alto e bom tom, que pode chegar a 100 e a criança não fez questão de te ouvir? Bem… Com o tempo, apenas o objeto muda, mas o comportamento se repete.
Obviamente que não estou escrevendo este texto para você. Mas vai que conhece alguém que possa ser ajudado? Vai que, em algum momento de sua vida, você “relaxe” um pouco e queira ceder às tentações de ter momentos mais tranquilos, sem conflitos com seu filho, sem brigas, e queira deixar ele fazer tudo que ele queira, mesmo estando errado? Vai que…
Após uma consulta de emergência, quando diagnostiquei infecção de ouvido em uma criança de quatro anos (não são quatorze, são quatro anos mesmo!), a mãe falou:
– Filho, não se preocupe. Você não vai poder entrar na piscina por uma semana, mas vai poder ficar jogando GTA.
Eu estava de cabeça baixa, escrevendo a receita e logo levantei as sobrancelhas com cara de espanto:
– Vai jogar o que, Maria?
– GTA! Ele vive jogando este jogo!
– A senhora tem noção do que ele está jogando?
– Sei sim. Mas adianta falar? Eu já falei, mas ele não me ouve.
Se alguém acha que não adianta falar para uma criança de quatro anos o que deve ou não ser feito, o que esperar dessa criatura quando crescer? Quais as noções de limite, leis, comportamentos que este ser humano vai ter? Tem algum outro nome para isso que não “irresponsabilidade”? Não se responsabilizar pelo comportamento do filho, legalmente dependente, não é falta de responsabilidade? Eu devo ser muito retrógrado mesmo. Só pode. Mas prefiro ver as coisas pelo lado que tem jeito, pelo lado da mudança, da transformação. Se não tivesse a esperança de mudança, não “perderia” o meu tempo escrevendo. Estou bem intencionado e por isso acho que estou “investindo” o meu tempo para contribuir com alguém.
Reflexões a parte… Vai jogar GTA um caramba! Esse jogo só depois dos 18 anos e olhe lá! Para quem não conhece, procura na internet informações sobre o “Grand Theft Auto”, mais conhecido pela sigla GTA. Os jogos da série acontecem em cidades fictícias, aonde o protagonista (personagem que o seu filho controla, ou seja, o papel que ele veste naquele momento do jogo) é um criminoso que faz atividades ilegais, pratica violência gratuita, tráfico de drogas, assassinato, prostituição, etc. Coisas assim… instrutivas e adequadas para uma criança de quatro anos!
Em um papo que tive com meu afilhado, de 10 anos, que queria a todo custo jogar este game, perguntei:
– Por que tu quer jogar este jogo?
– Ah! Por que ele ensina várias coisas, tio! – com uma risadinha sarcástica, de família.
– Hum… Sei… E que coisas? – perguntei, morrendo de medo da resposta.
– Ah tio! Nesse jogo a gente aprende a assaltar banco, roubar, dirigir em alta velocidade… Essas coisas… Entendeu?
– Entendi. E tem a versão que ensina a deixar o afilhado de castigo?
– Ops! Ainda não…
Pesquisando um pouco mais sobre o jogo, vi que o tal GTA tem vários episódios. O “Liberty City” tem cenas de sexo consideradas “fortes” pelos especialistas em game. Já no episódio “San Andreas”, no meio do jogo, tem um minigame pornográfico com simulador de sexo virtual: “em uma das versões do jogo, a câmera sai de cena quando os protagonistas vão para o quarto. No conteúdo escondido, a câmera permanece no quarto e o jogador controla até a posição sexual do personagem.” Além disso, os jogadores podem cumprir diversas missões como comprar cocaína ou torturar imigrantes. Divertido, não? Seria, se o jogo fosse tratado em um ambiente lúdico, bem diferente da realidade. Mas não é o caso. A proposta é justamente criar um ambiente parecido com o real, com problemas sociais vividos por todos diariamente. E aí me pergunto: uma criança tem maturidade para lidar com estas questões, em um momento aonde ainda não formou por completo a sua personalidade? Será que ter contato com questões como comprar droga ou se divertir com sexo, nesta idade, não vai mudar em nada a sua forma de viver?
Respira Thiago, e agora continua. Vai que você consegue terminar este texto… Realmente é um jogo bem adequado para uma criança de quatro anos que está em recuperação de uma infecção de ouvido. E isso tudo porque não adianta a mãe falar, que a criança não ouve. Concordo com a mãe. Tem que largar de mão mesmo e deixar a criança se divertir enquanto se recupera. Eu que sou careta!

6 comentários sobre “Eu que sou careta!

  1. Taí um ponto que é um conflito para mim: “será que a criança tem maturidade suficiente?”
    GTA com 4 anos, não, óbvio, mas e o jornal, será que deixo assistir? E quando ela me pergunta “mãe, porque aquele tio tá todo sujo e tá sentado no chão?”… Acho que muita coisa não é dita pela desculpa (e aí vira desculpa mesmo) de que a criança não tem maturidade. Não se fala de sexo, de drogas, de violência, de aborto, de qualquer assunto “tabu” ou “polêmico” porque a criança não tem maturidade. Maturidade não é um presente que você ganha aos 18 anos, é uma construção. Se não, dá no que dá, adultos de 30 poucos jogando GTA para simulação sexual… a indústria lucra com a falta de maturidade. Este é um dos mistérios da grande arte de educar um filho.

    1. Concordo demais com você Daiana. A maturidade não cai do céu, de repente. Deve ser construída aos poucos, com auxílio dos pais. Mas você deve concordar comigo que não é dessa forma que devemos amadurecer, certo? hehehe

  2. “Sei sim. Mas adianta falar? Eu já falei, mas ele não me ouve.”

    Quem compra esse jogo é uma criança de 4 anos? Desculpa, mas ou as crianças evoluíram muito e já compram jogos com essa idade ou seria a mãe?
    O mesmo me pergunto nas consultas quando a mãe diz que ele só come guloseimas e eu digo para ele parar de fazer as compras no supermercado.

  3. Olhe filho, vou ter que estar mais a tenta qdo os meus netos quiserem jogar aqui em casa .Eu não sabia que este jogo era assim. Como tu sabes jogo de game eu não entendo nada. Obrigada . De careta você não tem nada.
    Parabéns pelo texto…

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