Dia Mundial de Luta Contra a Aids: uma possibilidade de falarmos sobre limites.

Nos últimos 8 anos no Brasil, os casos de Aids entre jovens de 15 a 24 anos aumentaram mais de 50%, enquanto no resto do mundo este número caiu 32% em uma década. No Dia Mundial de Luta Contra a Aids, me pergunto: O que está acontecendo com as crianças que chegam na adolescência sem consciência do risco e da prevenção? Aonde estamos falhando?

Grande parte de meu trabalho é mostrar para os pais a necessidade de dar limites para os pequenos. Vivo dizendo que tenho medo da próxima geração de adultos, que se acharão os verdadeiros Homens de Ferro, detentores de poderes incríveis, capazes de tudo! Sim! Os pais estão com medo de mostrar que seus filhos não podem tudo, que são limitados, que são apenas moradores do mundo e não donos dele! As crianças estão crescendo com a incrível sensação de serem as mais especiais, únicas, melhores, incríveis, mais inteligentes, que reconheceram as letras primeiro, que andaram primeiro, que já querem falar com apenas um mês de vida! Uau!
Não há mais interesse em crescer, em virar gente grande, pois já podem fazer tudo que um adulto faz! Dormem na hora que querem, comem o que querem e escolhem o que a família inteira vai fazer no final de semana. Se percebem que o programa vai ser chato, dão um jeito de fazer beicinho para, então, ficar no tablet o dia inteiro — É a única coisa que acalma, doutor! —. Não estão aprendendo a dividir, muito menos a ceder. Não entendem o que é o limite, o fim, a frustração. Não entendem que tem hora que dá, mas tem outras que não. E assim acabam crescendo como verdadeiros inconsequentes, dotados de poderes de adultos. Claro, pois podem vivenciar coisas de adulto: as meninas se vestem como as mães, os meninos entregam presentes de dia de namorado e são aplaudidos quando beijam a boca das meninas. As mães dizem que tem nora, quando seus filhos ainda não completaram 3 ou 4 anos. Mensagens que se acumulam no inconsciente e antecipam algo extremamente desnecessário. A infância dá espaço para o mundo adulto precocemente, e aí a noção de limite, a noção de que cada coisa tem o seu tempo se perde.
Bem… Aonde quero chegar?! Quero chegar no ponto exato do HIV: sua transmissão. Se um adolescente vai para a balada, se achando o Homem de Ferro — conceito este formado desde sua infância e não incorporado antes de sair de casa —, muito provavelmente não terá noção de que é falível, de que pode se ferrar, literalmente. Se mal orientado, será exposto ao sexo desprotegido, ao uso inconsequente de drogas, com a incrível sensação de que, como sempre, nada de mal lhe acontece, que o limite está com os outros e não com ele. Afinal de contas, ele é o melhor! E os melhores são imunes a tudo!
A diferença de medo e respeito é, talvez, a dose. Medo não parece ser algo saudável, mas respeito é necessário. Você realmente não precisa — não deve — criar seu filho com medo do mundo, mas será lindo se você conseguir ensiná-lo a respeitar os seus limites! Se você não consegue fazer seu filho ficar no seu quarto para dormir na hora certa, será que está preparado para lidar com as saídas dele na adolescência? Se não consegue dar o alimento certo, será que conseguirá ensiná-lo a usar as substâncias certas e na dose certa? Ontem mesmo atendi uma criança com vômitos após ter se entupido de comida, na presença da mãe:
Mãe: — Ai doutor, o meu filho está assim porque se entupiu de comida. Comeu lanche, depois tomou refrigerante e comeu outro lanche depois!
Eu: — Sério?!
Mãe: — Sério!
Eu: — Quem comprou? Ele estava sozinho ou você estava junto? Por que você não disse para ele parar, que já era o suficiente?
Se você não está em condições de determinar a hora de seu filho parar de comer, será que estará preparado para deixá-lo sair e fazer o que bem entender na sua adolescência? Posso lhe adiantar que não! Então corra contra o tempo! Entenda que o limite é aprendido nos primeiros anos de vida, que ele é necessário para a manutenção da saúde e de uma sociedade boa para se viver. Aproveite esta data para conversar com os adolescentes, mostrar os riscos e falar um pouco sobre a doença. Não tenha medo. Com os pequenos, tente transformar esta lição em algo palpável. Mostre que tem coisa que fazemos que podem ser boas no momento, mas que geram problemas futuros. Que temos que ter rotina, respeitar os nossos limites e, principalmente, as pessoas que nos cercam. Mostre que é bom ser criança, ter jeito de criança e fazer coisas de criança. Ele terá tempo para ser adulto e terá a maior saudade do mundo de ter a vida de uma criança!

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