Aleitamento materno: do ideal ao real.

Há algum tempo, quando ainda na universidade, idealizava a amamentação, assim como muitas mães. Aqueles cartazes de mulheres produzidas, com os bebês fofuxos no colo, mamando sorridentes. Parecia algo sublime, tranquilo, quase divino. Bem… Até era. Até pode ser. Mas nem sempre é.

Aos poucos, com a experiência do consultório, fui percebendo o quanto é difícil para algumas mulheres amamentar. Fissura, dor, cansaço, pouco volume de leite ou até mesmo excesso, causando endurecimento das mamas. O bebê inicia a mamada e logo para com um choro inconsolável. Regurgitação, cólicas… Uma realidade pouco falada, tornando inseguras e frustradas as mães que passam por essa experiência.
Com sorte, a mulher está amparada por um companheiro atencioso, respeitoso e compreensivo. Mais do que julgar ou palpitar, as amigas e avós que ajudam nos cuidados de seu bebê, devem ser acolhedoras e boas ouvintes. Falar que “comigo foi fácil, foi diferente” não ajuda em nada. Por outro lado, perguntar “como posso ajudar?” ou “você precisa de algo?” pode fazer toda a diferença. Entender que a amamentação é um processo complexo e muitas vezes difícil faz com que a mãe insista em manter o aleitamento materno, aumentando as chances de sucesso. Ao contrário, se acreditar em falas como “seu leite é fraco” ou “você fez cirurgia de mama, não vai conseguir”, a suspensão do aleitamento materno torna-se realidade.
Durante um plantão, fim de noite, chega uma mãe no consultório queixando-se do bebê de dois meses.
—   Doutor, estou amamentando e dando fórmula, mas meu bebê chora muito. Tem cólicas mas não vomita.
Ao ser questionada sobre quem está a auxiliando em casa, a mãe cai em prantos. Engoli seco. Entrei em contato com o sofrimento dela de um jeito real. Antes de responder, pude perceber o sofrimento com algo que, para muitos, parecia simples. Se não fosse tocado pela resposta de seu olhar antes mesmo que pudesse falar, talvez eu deixasse fluir o meu sentimento de “isso não se resolve em plantão”, mas…
—   Doutor, meu marido e minha mãe não param de brigar comigo. Dizem que eu sou a culpada pelo choro do bebê. Mas eu não sou! Não sou né?!
Ao mesmo tempo em que chorava, parecia se convencer da culpa. Oras… Até Freud dizia que os bebês choram por culpa da mãe, por falta de acolhimento, por isso e por aquilo… Pensa se o marido e a avó que moram juntos e não aguentam mais o choro não estão pensando o mesmo? Não deveriam! A decisão de ter um filho, não deve ser só da mãe, assim como os cuidados com a criança. Entender que não é fácil é o passo número um para quem quer ser mãe e pai.
Em resumo, o bebê estava com dificuldade para mamar, já que a mãe, pela ansiedade e talvez alguns outros fatores não identificados em uma consulta de emergência, estava produzindo pouco leite. A fórmula estava sendo dada em pequena quantidade, insuficiente para o bebê.
—   Doutor, cheguei a machucar meu mamilo tentando tirar leite, mas não sai!
Orientei o aleitamento materno e readequei a quantidade de fórmula para o bebê, com a técnica de translactação (sem mamadeira). Senti, pelo sorriso, que ela ia tentar continuar a amamentação, como orientada, mas ficou mais tranquila por poder alimentar o seu bebê sem culpa. Aliás… Êta sociedade para culpar os outros, hein! Ela estava dando fórmula sim, pois estava difícil amamentar. Algum problema?! Espero que ela tenha tido segurança e tranquilidade para continuar o aleitamento materno, e que tenha um marido e uma mãe modernos e leitores do blog para se perceberem nesse relato e mudarem de comportamento. E para você que conseguiu amamentar, espero que utilize sua experiência para ajudar outras mulheres com dificuldade.

6 comentários sobre “Aleitamento materno: do ideal ao real.

  1. Nossa! Meus primeiros, longos dias foram de assustar.
    Nao tive leite nos primeiros dias, logo ficou na mamadeira que causava muita cólica.
    E dá lhe colo. 😦
    Só no meio da primeira semana que surgiram os primeiros sinais do colostro.
    Meu leite, por mais que me esforçasse ao máximo, nunca engordou meu filho, o que era prato cheio pra minha sogra fica jogando piadas, o tempo todo pra mim.
    Quase perdi meu leite duas vezes. Na primeira vez fiz uso do Ocitocina, na segunda, usei o método da relactação.
    Ainda estou no segundo mês, vamos ver até qndo meu corpo produzirá. 😦

    1. Olá! O início da amamentação é, sem dúvidas, um processo difícil para algumas mulheres. Isso não é demérito, de forma alguma. Espero que tudo tenha corrido bem (com ou sem amamentação). Abraços!

  2. As decisões sobre que tipo de parto ter e se deve continuar tentando amamentar ou não deve ser da mulher, que conhece seus limites… Não devem haver pressões e julgamentos… Eu amamentei meu primeiro filho até 9 meses com muito prazer… Já os gêmeos, que vieram depois, amamentei dois meses apenas, pois o cansaço me venceu… Dia e noite eu só amamentava no peito, dava um complemento com mamadeira, fazia arrotar, trocava e fralda e começava tudo de novo… Cheguei no meu limite de cansaço físico e mental, então parei… Não sinto culpa nenhuma, foi melhor assim… Dica para as gestantes: leiam muito sobre amamentação! Dessa forma vc vai ficar mais segura e menos susceptível as palpiteiras de plantão. Eu segui o livro nana nenê e deu muito certo, não só em relação à amamentação, mas também sobre o sono. Meus três dormiram a noite toda antes de completarem três meses… O livro serve também para quem não conseguiu amamentar no peito…

  3. De tudo que eu sinto saudades da fase de bebê, nenhuma é mais forte do que dos momentos em que amamentei a Malu. Uma sensação de poder (pq só eu podia fazer aquilo) e de ser necessária (espero que qdo ela crescer lembre-se disso… kkkkk) e uma intimidade sem igual. Sei que fui uma privilegiada. Mas me preparei mto para isso… tomei sol no peito, fiz esfoliações durante a gravidez e ainda assim, tive 2 mastites, diagnosticadas e tratadas imediatamente e sem ter que parar a amamentação. Malu tomou leite materno exclusivamente até os 6 meses e a amamentação se encerrou aos dois anos. Tento passar para quem me pede a minha experiência… e uma dica de ouro foi dada pelo pediatra na primeira consulta ao pai: “Deixe sua mulher tranquila para que ela possa saber o que diz seu instinto materno.”

    1. Olá Juliana! Encontrar o instinto é realmente o caminho. Hoje as mães estão se deixando levar pela informação excessiva e acabam se descuidando da voz interna, daquela que só mãe tem. Quando as coisas vão bem, nada melhor do que continuar. Se algo limita a amamentação, converse com o pediatra, busque informações, mas sem se machucar ou extrapolar o próprio limite. A amamentação deve ser prazerosa para os dois: mãe e bebê. O pai, sem dúvida, deve ser o apoiador maior das decisões maternas! Grande abraço!

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