Trabalhar ou cuidar dos filhos? Eis a questão.

“Trabalha para pagar a creche do filho, mas sonha em ficar com ele.” Uma frase despretensiosa, mas que mexeu com sentimentos e gerou uma discussão intensa e calorosa iniciada no Facebook, que tento contextualizar aqui, em um texto escrito a muitas mãos.

Sim, sou filho! Tive e tenho pais presentes. Fui para a creche lá pelos três anos. Antes disso, sei que meus pais se viravam nos trinta. Minha mãe levava-me para o trabalho. Costureira, acolhia-me aos pés da máquina enquanto manuseava os panos, fazendo pequenos intervalos para me dar atenção. Era o jeito que ela conseguia (e podia). Depois, montou uma loja de roupas. Lembro vagamente que eu ficava no chão, sobre uma manta, num cantinho atrás do balcão. Via tudo o que ela fazia, ouvia suas conversas. Prestava atenção. Por mais que não houvesse uma interação constante, estava ali, sendo uma referência. Quando comecei a ir para a creche, ficava meio período. Relacionava-me bem com as professoras e especialmente com a merendeira, que separava o arroz com leite (meu prato predileto, na época), mesmo no dia que o cardápio fosse outro!

Durante toda a minha infância, meu pai trabalhou integralmente (manhã, tarde e noite), como professor. Mas olha que tenho lembrança de sua presença! Todos os dias almoçávamos juntos. Ele, na ponta da mesa, perguntava como tinha sido o dia. Cobrava algumas coisas, dava os seus sermões, e não deixava ninguém se levantar antes que todos terminassem de comer. Era uma questão de respeito, talvez consciência de que precisava haver interação. Mais do que isso, era uma forma de dizer que ele estava ali, para oferecer o que eu precisava, mas também para cobrar o necessário. Presentes? Natal, Aniversário e Dia das Crianças… E nada de escolher. “Quando tiver ganhando o seu dinheiro, você poderá comprar o que quiser”.

A escola tem seu papel, mas os pais também o tem. São papeis complementares, e não substitutos. Ficar com os pais é diferente de ficar na escola. Passou-se a falar que o que importa é qualidade e não quantidade. Discordo. A convivência precisa de tempo. Precisamos estar perto para aprender, para “pegar o jeito”. Você gosta de ir a uma consulta rápida, onde o médico não lhe dá tempo para falar? O tempo nos dá possibilidade de saborear, de desenvolver idéias e interações.

A creche não foi criada para maximizar o aprendizado das crianças. Desculpe-me, mas não foi. Ela foi feita para possibilitar que os pais tenham tempo para trabalhar. De qualquer forma, se for necessário utilizá-la, há possibilidade sim de interação, aprendizado e cuidado adequado. Temos ótimas creches! Mas nada supera a mãe, o pai! Não podemos deixar crescer a ideia de que a família (seja ela do tipo que for) é substituível por um serviço. Uma mãe/pai adequados saberão conduzir da melhor forma o desenvolvimento de seu filho, com suas necessidade básicas de aprendizado e interação. Pais adequados não deixarão de levar seu filho em um local público para interagir com outras crianças. Uma mãe e um pai adequados saberão o que dar para seu filho comer, como limpar seu bumbum e até procurarão na internet jogos e atividades para ocupar o tempo de seu filho. E se forem bem pacientes no começo, o filho aprenderá a brincar sozinho, deixando-os com tempo disponível para seus próprios afazeres. Isso também faz parte do desenvolvimento.

A sociedade que estamos construindo, está roubando o tempo das pessoas, tornando-as ocupadas e culpadas, pois assim consomem mais. O tempo ausente é trocado (sem pensar!) por objetos; a presença pelo presente. O chororô já é lei. Assim, para parar, te dou alguma coisa. A culpa acaba conduzindo a vida… E quando tocamos em um assunto que a envolve, vem a rispidez, mascarada de ativismo! “Só pode falar nisso quem tem filho!” Ué?! E se seu chefe não tiver… Não seria interessante que ele fosse incluído no assunto? E quem é filho, não pode falar também?

Não concordo com o “só sendo mãe para entender”. Talvez para “sentir”, mas não para entender. Esforço-me a cada dia para isso: para entender e poder ajudar. Sobre o sentir, cada experiência é única. Engana-se a mãe que acha que sente a mesma coisa que a outra. Não é o papel, mas a vivência, a história, a combinação de neurônios e sentimentos que tem dentro de cada um que constitui o indivíduo. Assim como você nunca sentirá o que sinto, eu também não pretendo o mesmo, sentindo o que você sente. Mas podemos nos esforçar para entender o que se passa como o outro.

Quando converso com as famílias, um mundo se abre à minha frente. Vejo pontos de vistas diversos, vivências e experiências fantásticas, que devem sim ser debatidas e utilizadas como repertório para quem busca um caminho. E desse jeito foi se desenrolando nosso papo virtual, com vários apontamentos sobre terceirização do cuidado, a mãe e o mercado de trabalho e até o pai que “vira mãe” (ou seria o pai que simplesmente cumpriu o “novo” papel de pai?).

A terceirização dos cuidados foi apontada fortemente como uma conveniência, apesar de sabermos que, em muitas situações, é uma necessidade real. As opiniões acabam sendo diversas sobre esse aspecto, e algumas falas “embarcam” na vitimização, como se ter um filho fosse um sacrifício. Mas afinal, não foi uma escolha?!  Não era para ser legal? Claro que ter uma estrutura facilita a vida. Feliz de quem tem avós, babás e tudo mais. Mas qual o limite disso? Qual o limite de ter seu filho com outras pessoas e não próximo de você? Qual fase seria a melhor para seu filho começar a ficar longe, para que os pais tenham seu “momento casal”?

Sobre ficar em casa e o mercado de trabalho… A vida é feita de escolhas, e não adianta… Tudo tem o seu preço. A fantasia da onipresença e onipotência deve ser superada na infância. Não podemos fazer tudo ao mesmo tempo.  Temos que ter prioridade. E dizem os filósofos que prioridade é uma só. Se os filhos precisam de mais atenção, a carreira vai ter que esperar um pouquinho. Cada família deverá conversar para saber que tempo é esse. Tem gente que muda de carreira aos 50, 60 anos. Há poucos dias ouvi um homem que se formou em medicina aos 80! O recomeçar é relativo. Ah… Mas o pai vai ter que ajudar. Não tenho dúvidas disso! E por que não conversar sobre o assunto? Bom seria fazer um contrato de parceria antes de ter os filhos! Risos.

Por falar em pais, eles foram lembrados nas conversas: “Achei curioso que não li comentário nenhum sobre o pai ficar em casa enquanto a mãe sustenta a família.” Sim, essa é uma realidade que está sendo transformada. Por que o pai não pode reduzir seu trabalho para ficar mais com o filho? Os tempos mudaram, a forma de trabalho também. Acompanho famílias que o pai optou em trabalhar em casa para ficar com as crianças; em outra, os pais se revezam em plantões.  E para quem não acredita, tem família que o pai largou o trabalho formal (e passou a cuidar da casa e dos filhos), enquanto a mãe garante a renda da família! “Essa questão de gênero precisa ser trabalhada”.  “Tenho visto muitos homens que não conseguem abrir mão de sua jornada exaustiva de trabalho para ficar mais com os filhos, por pura ‘necessidade’ de acumular e ‘dar o melhor’ para os filhos.” Pois é… São questões para se pensar. Não adianta falamos em modernidade, mas deixarmos nosso pensamento amarrado no passado.

E muitas são as possibilidades… Há quem colocou os filhos na creche por um período mais curto, para conseguir trabalhar ou simplesmente para ter um tempinho“só meu”.  E antes que você pense que isso é egoísmo, veja lá: “é importante manter o restante da minha vida na ativa, pois assim como dou raízes para minhas filhas, também dou asas, e no momento certo elas vão voar para cuidar de suas próprias vidas… E tem que restar algo que seja ‘eu’ neste processo e não só a mãezona.” A fala mostra com clareza a necessidade de se desenvolver o papel de mãe, mas também de manter o de mulher. Cuidar dos filhos, não significa viver a vida deles, mas ajudá-los a “criar asas”, prepará-los para que possam voar. Por outro lado, este preparo requer “raízes”, que só é possível  com a presença e convivência. Nada melhor do que uma mãe atenta para perceber quais sãos os momentos certos e bancar com segurança esse caminho.

Por outro lado, tendo como objetivo estar mais tempo com os filhos, mantendo a possibilidade de interação, tem gente que optou em trabalhar a noite, nos plantões: “virei coruja no hospital para vivenciar a maternidade de filhos acordados…”. Engraçado como essa fala contrapões os tempos de cama compartilhada, onde há uma outra possibilidade de se estar “junto” com os filhos… Só que dormindo. Será que esse ideia não está tão na moda pela pressão da culpa da falta de tempo? Bem lembrado quando se falou que “deve-se considerar a realidade de cada mãe. Estar no lar, não quer dizer estar próxima do filho… E estar trabalhando, não significa necessariamente estar ausente”.  Em outra fala, “não se trata apenas de trabalhar ou não, isso depende da realidade de cada um, mas de buscarmos a felicidade no que realmente importa, sem culpas!”.

E como nada termina em si, por que não levantarmos mais questões sobre o assunto? “Por que as mães se sentem mais cobradas do que os pais?” “Por que [ficar em casa] seria apenas uma função feminina?” E nas famílias de mãe-mãe ou pai-pai, quem deveria fazer o que (duas mães em casa ou dois pais trabalhando!?)? “Como as empresas poderiam participar na criação das crias?” “Por que a sociedade não se sente responsável pelas crianças, se serão essas crianças os adultos de logo?” “Cadê os espaços que podem acolher essa nova família que precisa de grana e que não quer terceirizar?”

Gosto muito de trocar idéias. Elas vão me transformando ao longo do tempo. Assim, sou um pouco eu, um pouco você. Isso me traz felicidade, sensação de plenitude. Levo um pouquinho de você comigo… Escolho o que levar. Da mesma forma, torço para que você consiga selecionar o que levar de mim, para também ser mais feliz. Essa é a minha essência.

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s