Pediatra sem filho

Pediatra sem filho? Vou perguntar ao gineco como ele se sente sem… Deixa pra lá!

Essas conversas têm me lembrado de muitas histórias da infância. Acho isso bom, pois vou preenchendo alguns espaços vazios dentro da minha cachola. E falando sobre ser pediatras sem ter filhos, lembrei que, até os meus seis ou sete anos, queria ser domador de leões! Foi a primeira profissão que pensei em exercer. Passava dias e dias idealizando, imaginando… Desenhava o circo, os leões.  Mas sempre esbarrava em um obstáculo: onde dormiriam as feras?! Como poderia ser domador de circo se eu não tinha como acolher os leões na minha casa?  Perdi algumas horas tentando fechar essa equação…

Agora, já crescido, consigo perceber minha inocência e confusão: eu queria ser domador de leões e não ser pai de leões. Ainda pequeno, eu não conseguia distinguir uma coisa da outra. Claro que naquele momento eu não sonhava em ser um leão pai, adorado e amado por todos os “meus” leõezinhos; mas seria um simples domador de leões. Era só isso que eu queria ser…

Antes que alguém me interprete mal, essa é uma lembrança. Pensava dessa forma. Julgue-me como uma criança. Hoje, alegro-me que a profissão de domador de circo está em extinção e que, felizmente, mudei meu caminho. Cheguei perto do circo, sendo palhaço de hospital por um bom tempo, mas nos últimos anos tenho exercido mais o papel de pediatra. Mas pediatra sem filho? Como alguém pode ser pediatra sem ter filhos?

Para começar essa análise, vamos ao dicionário: “PEDIATRA é o médico especialista em doenças de crianças”. Não! Isso não! Não se deve admitir que médicos sejam especialistas apenas de doenças. Insatisfeito, fui a outro dicionário — alguém deve ter escrito isso de forma diferente! —. Achei: “médico especialista em crianças e adolescentes”. Ah sim… agora sim. Somos especialistas em crianças e adolescentes, em sua totalidade. Nota: não encontrei nada do tipo “especialista em FILHOS” ou conceito de “PAIDIATRA” (como diria minha Dinda).

Mas como nos formamos pediatra? Vai que exista algum pré-requisito que eu tenha deixado passar (como “ter filhos”)? Podemos fazer uma residência médica, que é uma especialização em período integral, geralmente em hospital e ambulatório, onde aprendemos a lidar com crianças saudáveis (prevenção) e tratá-las quando enfermas. Outra forma é fazer uma prova. Mas para isso, deve-se preencher alguns requisitos: o candidato à pediatra pode comprovar ter feito algum curso na área, com uma carga horária mínima exigida, ou ter trabalhado exclusivamente com crianças nos últimos 4 anos. Aí que vem a minha dúvida: se depois de formado, eu tivesse um filho e cuidasse dele por 4 anos? Poderia me candidatar à prova? Tem um furo aí, hein?!

Uma grande diferença entre o pediatra e os pais, é que os pais conhecem muito de uma criança só (ou duas ou três) e o pediatra conhece um pouquinho de muitas. Os pais até podem conhecer de algumas doenças. Mas espero que o pediatra conheça mais e saiba como tratá-las adequadamente. Isso lhe dá um olhar generalista sobre a criança (e suas mazelas) e o permite auxiliar a família em situações pontuais, que devem dar conta das especificidades. O pediatra não consegue resolver a vida da família, não consegue oferecer a atenção necessária para o crescimento e desenvolvimento, não tem a função de alimentar e educar a criança. Mas pode orientar caminhos para a família fazê-lo.

E aí, trazendo um belo relato de uma amiga pediatra e mãe: “Os livros nos ensinam muito, a experiência dos relatos em consultório, a psicologia, mas só tempo integral, acompanhar o desenvolvimento de uma criança diariamente, te trás a possibilidade de experimentar o exercício com outros olhos…” Sim! Com olhos de pais! Sem dúvidas é um outro olhar sobre a criança, o principal olhar. Porém, há pediatra que traz esse olhar (o de pai) com tristeza, pois não foi suficientemente bom. Há pediatra que acha tudo mimimi pois seus filhos não tiveram problema algum. Veja que estou falando de experiências diferentes, únicas, que não podem ser generalizadas.

Muitos pais estão com seus filhos todos dias, mas me perguntam como alimentá-los. Muitos relatam no consultório ter dificuldade para fazer seu filho dormir e eu auxilio. Vários perguntam como tirar a fralda ou até se devem passar pomada para assaduras. Ajudo, mesmo sem ter filhos. Aqueles que perguntam como é ser pai… Aí eu passo a vez: “Essa pergunta, eu faço a você.” Também os questiono sobre o que sentem quando o filho chora… Eles me trazem sua experiência (entendo, mas não sinto). Aprendo como eles interpretam a fome ou sono de seus filhos (cada criança age de um jeito diferente!). Eles me fazem entender como é difícil dizer não para os pequenos, mesmo sabendo que é necessário… Isso me ajuda a respeitá-los. Falamos sobre isso. Trocamos ideias, experiências, vivências. Por enquanto aprendo assim, desse lugar.

Sabe um espetáculo, que pode ser visto de diversos lugares diferentes? Há quem suba no palco, mas também quem trabalhe por trás das cortinas. Tem diretor que nunca foi ator. Até crítico existe, sem a experiência de atuar, apenas com a de assistir atentamente, com detalhes. E tem aqueles que simplesmente sentam na plateia para contemplar. Todos são importantes para que o espetáculo aconteça. São olhares, lugares.

 

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