Meu filho é o “mais”!

Ouço todos os dias frases do tipo: “O meu filho é o mais inteligente”; “Ele é mais esperto que os amigos”; “Não é por nada, mas conheço outras duas crianças, e o meu filho é o mais ágil”. “Ele já mexe no tablet. Aprendeu sozinho!”… Com tantos superpoderes vindos de fábrica, as crianças não precisam se esforçar mais para nada. Oras, se já são os “mais”, para que o esforço?!

Além de ser uma questão de status (“pai do melhor”), os adultos se beneficiam ao achar que seus filhos são superdotados: não precisam ajudá-los ou acompanhá-los, pois já estão prontos. “Ele aprendeu sozinho!“. Tem coisa melhor? “Isso você sabe melhor do que eu, meu filho. Não posso te ajudar.” “Vocês estão aprendendo coisas tão mais difíceis do que no meu tempo! Pergunte para o professor amanhã”. Ou… “Procura no Google!”. Quem não?! Risos.

Esse papo já começa cedo, com a história dos “saltos do desenvolvimento”. Não! Nenhum neurônio pula! Nenhum neurônio salta! Isso só acontece porque os pais costumam valorizar o resultado final: de uma hora apara outra, meu filho começou a rolar! “Foi o salto do desenvolvimento, doutor?“ Sinto lhe informar, mas não. Não foi de uma hora para outra; foi aos poucos e bem devagarzinho que isso aconteceu: teve um dia que ele não conseguia se mover para os lados; aos poucos foi tendo vontade de se movimentar e então aprendeu como fazer; depois passou a gostar de se embalar… e os embalos foram ganhando força na medida em que seus músculos se desenvolviam, vagarosamente, até o dia em que: tcharam!! Ele conseguiu rolar! Não foi um salto! Foi você que perdeu o processo. Ele está aprendendo enquanto você fica nas telas (como agora!).

Temos a mania de valorizar o fim, e não o processo. E também por isso, pais ficam aflitos se seus filhos demoram um pouco mais (que o filho dos outros) para sentar, andar ou falar. O foco no resultado final é tão maior, que deixam de perceber e valorizar as pequenas conquistas do dia a dia. “O filho da vizinha já senta!” “O priminho dele já fala, e olha que nasceu depois!”. Com os maiores, vão levando de barriga, vão deixando dormir mais tarde  e ir para a escola sem a tarefa feita. No final é aquele desespero quando o bom resultado não chega. O foco é o resultado, o final. E de forma incoerente, querem um final bom, mesmo que o processo não tenha sido adequado. Mas estamos muito ocupados para acompanhar o processo, não é mesmo?!

Perceba o esforço que seu filho está fazendo; cada um tem seu tempo. Se continuar assim, logo aprende. E se não aprender, talvez precise de sua ajuda (não só a da professora). Estar presente é reconhecer o esforço e não o simples resultado final. Se você fizer bem esse papel (de estar presente e reconhecer o esforço, o processo), seu filho continuará tendo vontade de ir para a escola e se empenhar, mesmo sem superpoderes. Aliás, se ele entender que você valoriza o real interesse e não apenas o resultado, ele terá prazer em se esforçar, e não apenas em “ser o melhor”.

Talvez você precise estar mais presente de verdade. Talvez. Pais devem ser suficientemente presentes e isso é muito mais do que achar que “o que importa é qualidade e não quantidade de tempo” (vale um texto). Se você toca mais o celular do que seu filho, e se seu filho toca mais o tablet do que você, então é possível que tenha alguma coisa errada. Estamos achando isso tudo normal. Estamos achando tudo blá blá blá de quem não tem filho. Estamos achando tudo inevitável, algo maior que foge do nosso controle. Melhor achar que não temos controle, pois aí ignoramos sem culpa.

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